Resenha: “Apologia da História ou O Ofício de Historiador”

De início a pergunta, o que é história e qual sua função? (Pergunta indagada pelo filho do autor durante a introdução do livro) Pois a história por si só é uma palavra que engloba outras vertentes, que podem ser de uma época, de um acontecimento, de um povo, em virtude do seu nome que remete ao povo helênico a história é em si uma ciência (mesmo havendo discordância por parte de alguns) que a partir do uso de estudos e ferramentas, podemos “decifrar” o passado e entender um pouco melhor através dos recortes alguns aspectos das antigas civilizações.
Em contrapartida o foco de estudo da história deve ser o homem (prefiro usar o termo ser humano) e a sua intervenção no tempo, na terra e no mundo, pois este será o seu objeto de pesquisa.
Por outro lado, vemos também que o estudo da ciência chamada história por si só também se reverte em outra coisa chamada tradição (ou estudo desse fenômeno), que pode ser através de um comportamento passado de geração a geração, pela oratória, vendo dessa forma podemos classificar como uma arte, pois essa forma de aprendizado e comunicação que os mais antigos e até algumas tribos tem o costume de ensinar, praticar e mostrar os antepassados e seus costumes aos mais novos, devemos pensar que a história e seu estudo devem ser considerados tanto uma ciência quanto uma arte, pois nessa área é necessário o “tato” (sensibilidade) e a atenção e dedicação .
Ao pensar em história devemos também ter em mente a seguinte ideia, de que trabalhamos com o tempo, que é continuo e passa por séculos e séculos de ideias, pensamentos, revoluções e afins o estudo da história deve ter embasamento nesse contexto, pois a partir do momento em que se trabalha com recortes, estamos adentrando em uma determinada época e tempo específico, costumes e conceitos daquele período em questão.
O que se estuda? A motivação (não sei se essa seria a palavra mais adequada) que impulsiona o estudo da história é em sempre querer ou tentar desvendar a “verdade” ou as “verdades” conhecer a origem primordial do homem em simples resumo, o início, o que move e deve mover um historiador deve ser o seu senso de curiosidade, (acredito que eis aqui algo que está intrínseco) querer saber o porquê das coisas, algo que a filosofia também já vinha fazendo nos tempos de Grécia antiga a partir dos sofistas.
O objeto de estudo, o passado, não se deixar levar por anacronismos, deve-se ter em vista, a época, o tipo de civilização e cultura e costumes (que muitas vezes divergem dos nossos contemporâneos) deve-se uma observação muito importante, pois ao estudarmos esses fenômenos históricos em seu determinado tempo, não temos como afirmar ao certo, determinado acontecimento, são apenas especulações através de recortes, no caso do estudo de civilizações mais antigas.
O autor Marc Bloch também faz uma referência interessante que para podermos compreender o presente deve analisar o passado e não ignorar, pois daí tiramos as conclusões para melhor compreensão dos tempos atuais a grosso modo uma troca de gerações, apesar de que como o autor diz o presente em si, pode ser considerado algo volátil pois ele acontece e por si só ser torna passado.
Outro ponto de vista que também podemos citar é que ao estudar a história e as figuras históricas e seus acontecimentos e feitos, deve pensar com a mentalidade (ou pelo menos ter uma noção de compreensão) da época em questão, quais eram as questões sócia e políticas, porque o objeto de estudo, entende-se o homem por si só é um ser totalmente mutável e imutável.
Não cabe ao historiador ter visão apenas ao passado (apesar de essa ser a sua função) o mesmo também deve ter olhos para o presente, o universo a sua volta pois tudo é uma consequência de processos históricos entre o arcaico e a modernização, pois dessa forma cabe ao historiador sempre observar e absorver o mundo a sua volta, “o conhecimento do presente ser diretamente ainda mais importante para a compreensão do passado”.
Os fatos estão aí para serem estudados, mas em referência ao autor Marc Bloch não possível chegar em uma verdade absoluta sobre os fatos e acontecimentos, pela escassez de documentos por se trata de períodos antigos ou a total eliminação deles.
Não é possível ter um conhecimento de todos os fatos históricos em uma vida, recomenda-se estudar aquilo que tem mais afinidade dessa forma os estudos podem fluir melhor.
Uma característica do historiador é que o mesmo, como havia dito, trabalha com a observação dos fatos, com teorias e especulações, nenhum historiador pode ou deve afirmar um fato/recorte histórico, porque simplesmente o mesmo não estava lá como testemunha ocular, portanto cabe ao historiador “investigar” os documentos e testemunhos do recorte estudando em questão, esse processo de “investigar” o passado, trabalhar com relatos que muitas vezes mostram apenas um ponto de vista em questão existe a necessidade de trabalhar com vários relatos, trabalhar com o raciocínio até mesmo para entender melhor os ritos e costumes que muitas vezes ficaram ou ficam perdidos no tempo (pois não a testemunhos e escassez de documentos e referencias) daí cabe ao historiador buscar o documento histórico, esse resíduo deixado para atrás um trabalho geralmente exercido pelo arqueólogos também, no caso de escavações onde são encontradas ossadas, cidades, resíduos de antigas civilizações e que muitas vezes podem elucidar (ou não) os costumes e hábitos desses povos, portanto segundo Bloch o historiador deve estar atendo sempre a respeito dos lugares onde ele pode pesquisar seja dos ritos religiosos até a sua própria língua falada e sua origem.
Mas deve acima de tudo ter cautela, deve se verificar autenticidade do documento (principalmente documentos escritos) portanto é imprescindível para o historiador a crítica pois existe vários relatos sobre a falsificação na história e por causa do senso crítico e sensibilidade foi comprovado a falsificação desses documentos através das escritas, o tipo de papel, a arqueologia, os materiais utilizados, restos mortais, dentre outros, são formas de identificação da autenticidade dos elementos encontrados.
Ao estudar essa ciência deve ter em mente o instinto de farejar sempre, buscar e pesquisar o assunto e procurando não a verdade absoluta, mas o mais próximo dela, porem muitas vezes não temos acesso pois muitos desses documentos forma destruídos, sejam por guerras, invasões ou revoluções ou até em alguns casos as condições climáticas que nesse tipo de situação muita coisa acaba se perdendo o que é algo triste porque no final das contas acaba até dificultando o trabalho do historiador.
O autor mostra essa ênfase na crítica no trabalho árduo da dúvida pois se trabalhamos com relatos e testemunhos orais e documentos quer podem ser facilmente manipulados, vemos que o historiador em seu oficio deve sempre trabalhar a crítica e analisar minuciosamente os fatos, nas palavras do próprio autor “entre a mentira e a verdade, permitem uma triagem” assim vemos que a verdade ou proximidade dela é uma das funções básicas de um historiador em relação a crítica dos seus documentos em questão, a cabe ao mesmo abolir preconceitos e receios durante esse processo, nesse processo da crítica como cita o autor deve-se extorquir a informação apresenta no documento ou que as vezes o mesmo nem tem a intenção de mostrar, portanto não acredite em tudo que vê e que lê. Sim o oficio da história permite que ele trabalhe com a mentira como cita o autor, na idade média havia uma onda de falsificação de documentos, que para alguns pode ser a fonte inesgotável de problemas se não for analisada de forma crítica e correta e ainda assim não perdendo seu valor histórico.
Portanto deve-se ter senso crítico, a autenticidade do documento e sempre observando o presente para poder melhor compreender o passado e seu tempo de estudo.
O historiador segundo o autor deve se manter neutro no sentindo de julgar o período ou cultura em questão, não cabe ao historiador julgar outras civilizações como melhores ou piores, mas sim em compreender como esse organismo funciona e assim mostrar que através de analises e estudos se faz o trabalho do historiador sempre trabalhando o senso crítico.
A função básica historiador como já havia dito é em compreender a história e seu momento de estudo e analise em questão, portanto não cabe ao historiador vangloriar ou condenar figuras ou “heróis” do passado, mas sim analisa-los e tentar explicados dentro do máximo possível da vertente verdade.
Partimos da premissa do conceito religioso no monoteísmo, apenas existe um Deus e criador de tudo e de todos, um Deus monoteísta que foi sendo criado na antiguidade, já nas religiões politeísta no oriente já tem uma relação mais intrínseca com a natureza e pode ser também influenciado pela cultura, pelo seu povo e época vendo essas discrepâncias chegamos que o historiador não pode ser influenciado pela sua paixão, crença ou influencias externas o seu estudo se baseia nas analises (como já havia dito) não temos nenhuma influência sobre os acontecimentos e fatos, rotinas e destinos, um lugar onde a opinião individual é nula, apenas o coletivo amórfico da civilização estudada em questão é o que nos impulsiona.
Vemos também que cabe ao historiador fazer o seu próprio recorte do que pretende estudar em questão nesse caso o próprio tem total autonomia nesse sentindo pois sabemos que não é possível ter um conhecimento geral sobre toda a história uma reles existência humana não daria conta de tanta informação, portanto o autor recomenta que se faça esse recorte e que se tenha um foco objetivo no objeto estudado.
A história em si é uma ciência mesmo com algumas opiniões divergentes, mas ao mesmo tempo em que é ciência ela também necessita de outras ciências, a heurística mostra bem a forma como deve ser trabalhado a buscar por documentos, traços deixados pelo homem no decorrer do tempo por parte do historiador.
A nomenclatura dos e aspectos de uma sociedade deve ser bem definidos pelo historiador para dessa forma não gerar uma demasiada confusão entre os fatos descritos que podem ser desde de práticas, crenças, religião ou política. A história tem o seu vocabulário próprio, portanto, em sua maior parte, da própria matéria de seu estudo, por um longo uso, ambíguo, aliás, não raro desde a sua criação, um bom exemplo é o caso do vocábulo burguês que no sentindo história existe uma grande diferença entre o burguês da idade média com o burguês pós revolução industrial a mesma palavra, mas que muda de figura de acordo com o período do tempo estudado em questão, segundo o próprio autor “Este é o procedimento natural do caráter tradicionalista inerente a toda linguagem, assim como a pobreza de inventividade da qual sofre a maioria dos homens.”
Já no ultimo capitulo (sem título) o autor mais uma vez dá a sua ênfase ao estudo da história através de recortes, o estudo fragmentado das eras passadas, através de recortes, eis que em resumo o ofício do historiador deve ser sempre em estudar o homem em função do tempo, compreender o passado com o olhar contemporâneo, sem permitir a projeção de anacronismos, e buscar sempre pela verdade (mesmo que não absoluta, mas próxima) independente do impacto que ela poderá trazer consigo.
O autor também cita ideias do positivismo em relação ao acontecimentos e casos estarem atrelados uns aos outros e que o historiador e suas produções também terão consequências e influencias a grosso modo, ação e reação.
No capítulo V se resume basicamente a essas referências, já que o autor Marc Bloch foi fuzilado em 16 de 1944 durante a segunda guerra mundial e seu livro “Apologia da história ou o ofício de historiador” foi publicado após a sua morte.
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Apologia da História ou O Ofício de Historiador
Publicado por Lucien Febvr em 1949 é uma publicação póstuma do historiador Marc Bloch.

RESENHA: FINLEY, Moses. “História Antiga; Testemunhos e Modelos”

Os testemunhos literários são deturpados pela intensa adulteração presente na tradição manuscrita e, antes de mais nada, pela indiferença da maioria dos escritores da Antiguidade para com os assuntos econômicos, bem como por sua falta de métodos e seu descuido na apresentação de números; os testemunhos documentais disponíveis consistem, esmagadoramente, em papiros provenientes do Egito, uma aglomeração fortuita de documentos e fragmentos e extremamente limitados (ainda mais por não haver, um único proveniente de Alexandria, onde as condições do solo são impróprias para a preservação de papiros descartados.
Por isso vemos que o historiador não é neutro não é isento e o historiador não escreve verdades absolutas (mas deve chegar o mais próximo disso através de pesquisas estudos dos documentos que dispõem do assunto em questão e deve-se averiguar a veracidade do documento em questão), a história deve ser escrita a partir de um objeto, esse objeto é o homem em uma relação especifica em um determinado tempo e espaço.
Ao estudar e ou pesquisar uma determinada época, o historiador deve se atentar a questão do anacronismo, pois deve raciocinar (por mais complexo que possa ser) deve se pensar na forma especifica da época em que se estuda e não deve haver comparações com os tempos atuais (exemplo: questões sociais, culturais e religiosas)
É de total dever do historiador ter o repertório e as fontes para escrever a história, ele deve preceder os fatos através de pesquisas e fontes.
O historiador ao se aprofundar no passado ele não é isento e neutro pois tem total liberdade de escolher o seu recorte de estudo e analisar os fatos.
Se um fenômeno ou acontecimento ocorreu na antiguidade e não deixou vestígios ou se perdeu no tempo por questões ambientais: cheias, incêndios ou guerras ou descaso apenas ira dificultar.
Quanto mais antigo for o objetivo de estudo do historiador mais escasso é as chances de se encontrar documentos a respeito das épocas em questão.
Em certo sentido, todos os documentos originais que chegaram até nós, estão disponíveis graças à atividade arqueológica, profissional ou amadora, deliberada ou acidental. Se eu me restrinjo a registros/documentos escritos mesmo se isso não passar de uma marca em uma placa ou parede ou a algum objeto, devemos agregar importância mas também deve obter métodos de sua avaliação e interpretação que requerem uma consideração um tanto diferente no seu exame.
Uma constante ao estudar um documento é distinguir as seguintes preliminares a origem que podem ser duas, primeiro o documento pode ser proveniente de cidadãos comuns ou grupos, E de outro lado documentos originários de um órgão público ou seja o Estado.
A segunda é entre documentos destinados à circulação particular e ao conhecimento público.
Com tudo só podemos lamentar com relação aos registros e documentos da Antiguidade. Bem como a preservação do mesmo, eles são a representação de uma sociedade em que esse tipo de atividade é desenvolvida, a sua função que muda ou pode ser interpretada de forma erronia conforme a sociedade muda.
Do ponto de vista de pesquisa do historiador tudo pode ser visto como um documento histórico, marcas em tijolos, cerâmicas, inscrições em lápides, símbolos e legendas em moedas e os papiros do Egito. Tudo do ponto de vista do historiador pode ser considerado um documento histórico, agora cabe a ele saber qual a sua real função na época estudada em questão.
Mesmo sendo escasso na maioria das vezes os documentos da Antiguidade podem ser também, recibos e breves memorados a cartas, lista de impostos ou copias de decretos reais, tudo tendo sobrevivido graças a peculiar condição climática que ajuda na preservação dessas fontes.
O objetivo de todos os documentos era comunicar algum tipo de informação ou registrar alguma coisa ou acontecimento, mas não fornecer dados de definição política ou para uma análise, passada, presente ou futuro.
Pesquisas recentes demostram que existem documentos, (contrariamente as opiniões de gerações anteriores de papirologistas), que acreditavam em uma “economia planejada” no Egito antigo, em um “mercantilismo”, em um “capitalismo estatal” e até mesmo em um “socialismo estatal”, toda essa documentação é em grande parte, ilusória para o estudo da economia, pois esses conceitos ainda não precediam para o estudo da economia, embora valiosa por sua compreensão da mentalidade dos reis e de sua vasta burocracia.
Deve-se analisar também que apesar de toda essa documentação algumas sociedades da antiguidade não desenvolveram a escrita mas criaram avanços fenomenais em outras áreas com isso chegamos ao consenso de que cada civilização conseguiu se desenvolver de acordo com suas necessidades e conduções sociais e climáticas.
A escrita se cria e se desenvolve em algumas civilização como uma questão burocrática e administrativa e em outras ela não se desenvolve não por questão de inferioridade mas sim porque não havia a necessidade em questão.

Sobre o autor:
Sir Moses Finley (20 de maio de 1912 – 23 de junho de 1986) foi um historiador americano radicado na Inglaterra, especialista na economia do mundo greco-romano. Suas obras também incluem estudos sobre a política e sociedade gregas, e ensaios teórico-metodológicos sobre o estudo da Antiguidade. É o principal expoente da vertente primitivista[1] dos estudos sobre a economia antiga, defendendo que valores como o status e a ideologia cívica governavam a economia antiga ao invés de motivações econômicas racionais.

Principais obras:
Economy and Society in Ancient Greece (1953) – Economia e Sociedade na Grécia Antiga. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
The World of Odysseus (1954)
The Ancient Greeks: An Introduction to Their Life and Thought (1963).
Aspects of Antiquity: Discoveries and Controversies (1968) – Aspectos da Antiguidade. São Paulo: Martins Fontes, 1991.
Early Greece: The Bronze and Archaic Ages (1970) – Grécia primitiva: Idade do Bronze e Idade Arcaica. São Paulo: Martins Fontes, 1990.
The Ancient Economy (1973) – A economia antiga. Lisboa: Afrontamento, 1986.
Democracy Ancient and Modern (1973) – Democracia antiga e moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1988.
Studies in Ancient Society, editor (1974).
The Use and Abuse of History (1975) – Uso e abuso da História. São Paulo: Martins Fontes, 1989.
Ancient Slavery and Modern Ideology (1980) – Escravidão antiga e ideologia moderna. Rio de Janeiro: Graal, 1991.
The Legacy of Greece: A New Appraisal (1981), ed. – O legado da Grécia Brasília: EDUnB, 1998.
Politics in the Ancient World (1983) – Política no mundo antigo. Lisboa: Edições 70: 1997.
Ancient History: Evidence and Models (1985) – História antiga: testemunhos e modelos. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

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Arte Africana autor desconhecido – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand – MASP